sobre o chão derretido, mãos seguram a liberdade que se prende ao pulso. Voando pode-se libertar das amarras de um sistema, mas inevitavelmente temos outro a nos prender. Quando ficamos inertes não conseguimos cessar, o movimento não vem da vontade, estamos imersos. Não encontramos a superfície, que logo ali nos espera, enquanto, sempre conosco, a consciência diz: não volte! não volte! mas se quiseres voltar, sabes o caminho. Não somos todos, mas suficientes, aumentamos com o caminho.
Então, estávamos voando como antes, sentindo passar, parados nesse turbilhão de pensamentos que não nos agarra, deixa passar. Abaixo haviam seres que pareciam um pouco tímidos, andavam desordenadamente, alguns rápidos outros nem tanto, alguns com as mãos perto do chão outros mais eretos. A euforia era grande, celebraram uma bebida preta, suco de outro reino, coisa que não os pertencia, mas a importância para alguns justificava a futilidade de outros.
As coisas aqui em cima continuam a fluir, os pensamentos andaram mais depressa. Rapidamente aparecem as mudanças, sentimos quase que instantaneamente. Logo outros, um pouco desapercebidos do que estava acontecendo, se aproximaram. Quando estamos juntos as coisas ficam sempre mais claras. Lembro que ouvi um comentário: “As coisas por aqui andam bem rápido.” Como não admitir que somente alguns tinham conseguido se integrar, e mesmo assim ainda mantinham muito do que aprenderam em outras épocas, o que não pode ser, de maneira alguma, um problema. Todos tem seu ritmo, mesmo a consciência mais rápida e sensível é tão lenta perto da velocidade que se da a existência. Pura sorte, ou teríamos, com certeza, seres fadados a agonizar sua insatisfação ao peso da descrença.
“O vale parece hoje mais verde!”, devem estar pensando. Mas as verdadeiras mudanças não estão na aparência. Se o coração lhe bate mais forte não é porque está a passar à outra, mas a mostrar o quanto importa estar nessa: foi o que sempre pensei. Sei que nem todos conseguem pensar assim. Paciência nem sempre é a saída, isso temos por referência, a caça é nossa sobrevivência.
Um pouco esquecidas, as consciências aí embaixo conseguiram se espalhar um pouco, alguns se permitem, enquanto outros se contraem. Não precisa ser necessariamente assim, essa é a mais importante das lições que, na minha opinião, deve ser colhida. Os reinos verdadeiramente universais não se importam, de maneira alguma, em ceder seus tesouros. No oceano, H2O não significa nada.
As consciências atingidas não vivem sozinhas, não são nada fora do meio, não podem fazer mal a nada, a não ser a elas mesmas. Ao por do sol se pode ver claramente a mudança gradual e graciosa de duas forças inabaláveis. Por mais forte que a luz pareça, sua existência só pode ser verificada à presença das sombras. Ter liberdade para experimentar mudanças bruscas na percepção, é como aceitar existir sobre conveniências, ou o medo de se perder não sairá da sua janela, não podendo, de maneira alguma, arriscar ao desejo de facha-la.
Ao estimar demasiadamente uma condição qualquer, abrimos mão ao posto de capitão da nau que leva a consciência ao extremo de nossas possibilidades. Parece que algo acontece mais ao lado. Fiquei a pensar se consigo sair daqui, uma coisa estranha se apossa de meus pensamentos. Parece que é essa rajada de vento que me sustenta, trazendo-me à dúvida dessa consciência que agora se manifesta: “será mesmo eu, uma ave, não sei se isso é possível”.
Num enjôo, me veio, assim de repente, mas com muita antecedência, a vontade de fumar um cigarro. Não se deve guardar-se demais, agora entendo um pouco mais, ou pelo menos, é assim que acho. As coisas parecem que estão mais claras, já me sinto um pouco mais perto. Mas por opção não tenho a mínima vontade de chegar à superfície, fico imerso, e assim quero permanecer. O que me incomoda é ver que tantos estão subindo além do que acho seguro.
Da pra perceber que estou de volta. Mas, com certeza não sou mais o mesmo, o que, na verdade, nunca fui. A natureza e suas relações são notáveis, me fazem ir em busca das mudanças. A diferença é um bom caminho, e a possibilidade não vem da vontade, pois a vontade vem das coisas que sabemos e, assim, podemos imaginar. Se soltar é levar a consciência ao inimaginável. Acreditar é dar um passo, lutar é agarrar e ser agarrado. O medo é inevitável. Corra ou pode ser tarde, o vento esta passando.
droga! eu poderia me resguardar a um olhar pra te falar sobre esse texto que eu amo. as tuas alterações deram outra cara. a distância, a superfície, a percepção, o sentido do vento e o regressar – montaria um painel imenso e plano, com aquelas cores que nem importaram tanto diante do algo vivido.