Feeds:
Posts
Comentários

Bolor

Atiro-me.

Des-ato.

Grito.

Invejo o acreditar.

Da última vez era.

a incerteza confessada, e agora

    com um dizer engasgado;  aquela maldita frase reverberando.

 um grito num corredor vazio.

A voz rouca.

“Acredito, acredito.”

 

O meio-amor não me interessa

:medida angular para o incomensurável.

Desisto.

 outubro pariu um amor minotauro.

aos ferros e fogos,

o consumado labirinto compartilhado.

 

Amanhece.

O desenho do bolor no pão.

esse mesmo que os diabos amassam.

  – e batizam dentro dos dentes,

    o que alimenta o faminto (esse tal amante).

Longe(s)

e então nada fale, hospitaleira lente do oco do olho.

habitando o fundo de um vulcão

a mulher do silêncio-luz,

absorta e desenhada em nuvens.

olha sou eu, sob a neve de papel

essa canção me mantém distante

o Longe(s) tão desejado

o hiato,                                   

             entre lugares-coisas-pessoas

será que virá alguma carta pra mim?

um permanecer de cada vez 

sopro contra acaso, digo e repito

contracaso

amanhã, talvez

como no inevitável espaço dentro do adeus

minhas folhas secas de utopia

quase acontecem, como num setembro

um setembro que a dor desistiu de mim

 

 

*os textos destacados são trechos de músicas do Vitor Ramil.

trânsito

sinal vermelho

sinal verme

sinal ver

sinal vê.

duas amigas. elas conheceram três caras hoje – provavelmente fugindo de outros caras, pelo que entendi na conversa – mas estes eram legais. trocaram telefones e uma das amigas foi embora. a que ficou, o tempo inteiro fazia charme, e danou-se a falar daquela. “somos super parceiras e saímos pra encontrar juntas o ex-namorado da outra”. o caso é, os três caras legais pagavam de homenzinhos, mas a história era outra. o mais falante deles e a garota disputavam qual grupo era mais amigos. “olha, na verdade, somos cinco amigos inseparáveis e eles sempre dormem na minha casa e blá blá blá.” o que não se sabe é se a tal garota em algum momento soube que  o jogo era de disputa e não tinha o “q” recíproco dos charmes com mãos nos cabelos dela . nem sei dizer quem ali ditava as regras do jogo. aliás, nunca sei. como nunca sei enxergar o fim. e nem como contar o final da história. 

Cortázar

“-Estaba al borde de un cantero, una flor amarilla cualquiera. Me había detenido a encender un cigarrillo y me distraje mirándola. Fue un poco como si también la flor me mirara, esos contactos, a veces… Usted sabe, cualquiera los siente, eso que llaman la belleza. Justamente eso, la flor era bella, era una lindísima flor. Y yo estaba condenado, yo me iba a morir un día para siempre. La flor era hermosa, siempre habría flores para los hombres futuros. De golpe comprendí la nada, eso que había creído la paz, el término de la cadena. (…)”  

Una flor amarilla, Julio Cortázar

a poeta e o pintor

poetas enamorados cantam cores:

entre o azul-noite e o roxo, o amor se esconde

por entre trilhas indecifráveis ao escurecer

o amarelo-sol encerra o encanto da lua:

desvanece outras estrelas

 

eis o florecer-rosa de encarnadas pétalas:

abrir os poros e entregar-se a tentações

violeta-febril em noites de calor

a transgressão parindo paraísos ancestrais

 

musgos celebram última ceia

paixões-margem à beira do rio

fundo do mar-desejo:

mundo de corais alaranjados

 

a nostalgia sempre invoca um dilúvio

traz de volta o turquesa de céu passado:

maciez de tez-nuvem

e os sonhos renascem

 

no verde-grama o pular dos grilos:

brindam amarelinhas e saúdam pedrinhas

o verde-devaneio aceso

culmina nos vermelhos-olhos

assassina alma-cinza

e ressuscita silêncio

 

a prece enaltece o luto:

paisagens de lamentos-parafina

enquanto a poesia existir

é cedo para lágrimas

desamanhecer

o mundo irreconhecível, coisas ainda sentidas. meandros das falas-mortas.

estrada1

password -

o gato deita-se na cadeira. meu cansaço e a partida eminente. a pergunta que mora nas pontas do dedos.: e por acaso, perder-se deixar-se esquecer é uma eterna ida que retorna sem dizer olá? fumo mais um cigarro e espero o tempo, filho do caos. o mundo inteiro passeia ao som de blues. a paz tem os olhos fechados. não, esqueci o que era a paz.

 

 

e quanto pesa o abandono? o mundo inteiro suportaria nos ombros, como o Drummond; mas o abandono? o que, além de uma casa vazia e um lençol enxuto com cheiro de lavanderia?

o castigo, meu bem. para o abandono do mundo nas centelhas de esquinas dos olhos. para o autoexílio. para o recolhimento na fumaça e no fim da noite de um domingo – o melancólico dia ou, em que os cristãos encontram-se com deus] 

um resquício de outro cheiro e um medo de  “tempestades solares”.

tirinha

malvados

Postagens Antigas »