a mesma morte é esta
que nos traz de volta os enfeites de uma solidão
submersa de passado
num universo de repetições
a existência parece amanhecer
enquanto nos recolhemos para dormir
é inútil adoecer
para sentir-se vivo

a mesma morte é esta
que nos traz de volta os enfeites de uma solidão
submersa de passado
num universo de repetições
a existência parece amanhecer
enquanto nos recolhemos para dormir
é inútil adoecer
para sentir-se vivo
sobre o chão derretido, mãos seguram a liberdade que se prende ao pulso. Voando pode-se libertar das amarras de um sistema, mas inevitavelmente temos outro a nos prender. Quando ficamos inertes não conseguimos cessar, o movimento não vem da vontade, estamos imersos. Não encontramos a superfície, que logo ali nos espera, enquanto, sempre conosco, a consciência diz: não volte! não volte! mas se quiseres voltar, sabes o caminho. Não somos todos, mas suficientes, aumentamos com o caminho.
Então, estávamos voando como antes, sentindo passar, parados nesse turbilhão de pensamentos que não nos agarra, deixa passar. Abaixo haviam seres que pareciam um pouco tímidos, andavam desordenadamente, alguns rápidos outros nem tanto, alguns com as mãos perto do chão outros mais eretos. A euforia era grande, celebraram uma bebida preta, suco de outro reino, coisa que não os pertencia, mas a importância para alguns justificava a futilidade de outros.
As coisas aqui em cima continuam a fluir, os pensamentos andaram mais depressa. Rapidamente aparecem as mudanças, sentimos quase que instantaneamente. Logo outros, um pouco desapercebidos do que estava acontecendo, se aproximaram. Quando estamos juntos as coisas ficam sempre mais claras. Lembro que ouvi um comentário: “As coisas por aqui andam bem rápido.” Como não admitir que somente alguns tinham conseguido se integrar, e mesmo assim ainda mantinham muito do que aprenderam em outras épocas, o que não pode ser, de maneira alguma, um problema. Todos tem seu ritmo, mesmo a consciência mais rápida e sensível é tão lenta perto da velocidade que se da a existência. Pura sorte, ou teríamos, com certeza, seres fadados a agonizar sua insatisfação ao peso da descrença.
“O vale parece hoje mais verde!”, devem estar pensando. Mas as verdadeiras mudanças não estão na aparência. Se o coração lhe bate mais forte não é porque está a passar à outra, mas a mostrar o quanto importa estar nessa: foi o que sempre pensei. Sei que nem todos conseguem pensar assim. Paciência nem sempre é a saída, isso temos por referência, a caça é nossa sobrevivência.
Um pouco esquecidas, as consciências aí embaixo conseguiram se espalhar um pouco, alguns se permitem, enquanto outros se contraem. Não precisa ser necessariamente assim, essa é a mais importante das lições que, na minha opinião, deve ser colhida. Os reinos verdadeiramente universais não se importam, de maneira alguma, em ceder seus tesouros. No oceano, H2O não significa nada.
As consciências atingidas não vivem sozinhas, não são nada fora do meio, não podem fazer mal a nada, a não ser a elas mesmas. Ao por do sol se pode ver claramente a mudança gradual e graciosa de duas forças inabaláveis. Por mais forte que a luz pareça, sua existência só pode ser verificada à presença das sombras. Ter liberdade para experimentar mudanças bruscas na percepção, é como aceitar existir sobre conveniências, ou o medo de se perder não sairá da sua janela, não podendo, de maneira alguma, arriscar ao desejo de facha-la.
Ao estimar demasiadamente uma condição qualquer, abrimos mão ao posto de capitão da nau que leva a consciência ao extremo de nossas possibilidades. Parece que algo acontece mais ao lado. Fiquei a pensar se consigo sair daqui, uma coisa estranha se apossa de meus pensamentos. Parece que é essa rajada de vento que me sustenta, trazendo-me à dúvida dessa consciência que agora se manifesta: “será mesmo eu, uma ave, não sei se isso é possível”.
Num enjôo, me veio, assim de repente, mas com muita antecedência, a vontade de fumar um cigarro. Não se deve guardar-se demais, agora entendo um pouco mais, ou pelo menos, é assim que acho. As coisas parecem que estão mais claras, já me sinto um pouco mais perto. Mas por opção não tenho a mínima vontade de chegar à superfície, fico imerso, e assim quero permanecer. O que me incomoda é ver que tantos estão subindo além do que acho seguro.
Da pra perceber que estou de volta. Mas, com certeza não sou mais o mesmo, o que, na verdade, nunca fui. A natureza e suas relações são notáveis, me fazem ir em busca das mudanças. A diferença é um bom caminho, e a possibilidade não vem da vontade, pois a vontade vem das coisas que sabemos e, assim, podemos imaginar. Se soltar é levar a consciência ao inimaginável. Acreditar é dar um passo, lutar é agarrar e ser agarrado. O medo é inevitável. Corra ou pode ser tarde, o vento esta passando.
os descendentes de deus se perderam em quimeras num sono em que a inocência deixa pegadas de bichos e lama nas ruas tropeçando em promessas de um céu que mais parece um quintal com árvores decadentes
na vida por vários caminhos bebemos apenas o suco amargo de uma existência desmedida escondendo na culpa ou no orgulho a responsabilidade azeda de nossas escolhas porque num domingo qualquer esquecemos a criança que somos deixando a cargo do mundo o que nunca seremos mesmo que ninguém tenha escolhido o que hoje sou cometemos nosso próprio infanticídio no silêncio de uma noite em claro escolhendo nunca mais olhar nos olhos daquilo que dizem que somos para lançar-se no vento do que nunca seremos neste domingo onde as trevas da cumplicidade com o sério asfixiaram a criança que hoje só encontro nas fotos envelhecidas da minha memória alimentando a mentira que escolhi viver acreditando que todos morrem cada qual na sua hora esquecendo que os mortos consomem o tempo deixando apenas o gosto amargo da carne podre que por sorte não sente o vento que mesmo livre não deixa de ser o que é na fortuna de uma quinta-feira qualquer aceitando a criança de domingo que sem compromisso brincará
o desespero é uma espera disfarçada
e repousa neste desconsolo
um caminho de flores artificiais
ou uma sincronia despreocupada
como de sapatos velhos
guardadores dos dias que se passam
ruminando paisagens parnasianas
e composições furtivas
com o encanto fulgaz que finda a tarde
o retrato do Sol desvanecido
entregue aos braços das horas.
o poeta encerra o dia
tecendo uma aflição anciã
em que a bengala do tempo
é o universo inatingível da memória
o olhar abismal para dentro da noite tem em si um suicídio posto: da palidez dos dias fantasmagóricos. qualquer coisa vil que insiste em se esconder, talvez uma máscara de vilã com lábios luxuriosos demasiadamente humanos. a falência dos sentidos resgata a incomensurabilidade carnal. pode o desejo atingir uma fundeza tal que faça imobilizar um espírito? ou então, a resignação ignora a lascívia para fazer perdurar a alvura do que reveste a pele. o esvaziamento é um pêndulo: somente uma face pode estar vazia a cada tempo. não há desvios para regurgitar o excesso - ou será culpa das paredes? as que encerram os desejos no âmago do escuro e hermético mundo do permissível.
não tento saber o quanto importo só desejo o prazer de sentir no vento que passa tudo aquilo que ignoro pertencer somente ao passado assim escolhi viver ignorante ao tamanho do tombo entregue ao desejo que esfola minha carne gozando a destruição dos nervos até consumir todo nojo que sinto no cheiro de podridão que foge - talvez por descuido - do resguardo de quem consumido pelo egoísmo não compreende o pescador que não se preocupa com o barco mas sim com o peixe